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04/02/2015 - 13:18 Imprimir a not�cia
Um preo muito alto
Por Marcos Rolim
marcos@rolim.com.br


Os neurocientistas James Olds e Peter Milner se
tornaram populares pelo trabalho pioneiro com
implante de eletrodos no crebro de ratos, na dcada
de 50.
Em seus estudos, eles fizeram com que roedores
acionassem alavancas para autoestimulao por
descargas eltricas. Outros cientistas passaram a
usar drogas nestas experincias, observando que as
cobaias presssionavam as alavancas centenas de
vezes, como se estivessem totalmente submetidas.
Desde ento, tornou-se comum conceber a adio como
um processo de sequestro absoluto da vontade
(disease model of drug addiction), uma dinmica que
no seria, em sntese, compatvel com escolhas
racionais. Esta compreenso passou a legitimar o
proibicionismo e a poltica de Guerra contra as
Drogas.

Nos anos 70, entretanto, o psiclogo canadense Bruce
Alexander e seus colegas da Simon Fraser University
chamaram a ateno para o fato de que ratos so
animais extremamente sociais e que, em laboratrio,
ficam isolados e submetidos a intenso estresse. As
reaes dos animais tenderiam a ser diferentes no
ambiente natural. Os pesquisadores criaram, ento,
outro experimento, conhecido como o Parque dos
Ratos, um espao de 8.8 m2 para vrios ratos,
machos e fmeas, com comida abundante, brinquedos,
cantos escuros etc. Ali, disponibilizaram uma fonte
de gua pura e outra, adoada, com morfina. O
resultado que os ratos do parque preferiam gua
pura. O mesmo resultado foi observado em
experincias com cocana e anfetamina. 94% dos ratos
preferiam gua adoada cocana intravenosa. Na
mesma linha, em seu impactante livro Um preo muito
alto (Zahar, 2014, 326 pg.), Carl Hart relata as
experincias que conduziu na Universidade de
Colmbia com pessoas que usavam crack diariamente,
demonstrando que, em determinadas condies,
usurios escolhem alternativas benficas ao invs de
uma nova dose. As evidncias encontradas permitem
questionar a ideia de que a adio possa ser
compreendida apenas como decorrncia do uso de
drogas. Antes disso, seria preciso considerar a vida
das pessoas, suas relaes, perspectivas etc. Esta
abordagem tm estimulado programas de ateno
drogadio com tcnicas de Gerenciamento
Contingencial, bem mais efetivas que programas do
tipo 12 passos (como o empregado nos grupos de
AAs) no tratamento da dependncia de opiides,
lcool, cocana e crack.

Hart que questiona os mitos de um saber anquilosado
e autoritrio. Nascido em uma famlia pobre, com
oito irmos, e cercado pela violncia domstica,
pelo trfico e pelo racismo, sabe das muitas
dimenses a serem consideradas quando se discute
poltica de drogas. Seu livro simplesmente
imprescindvel. Confiram.