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09/03/2013 - 14:34 Imprimir a not�cia
OVOS QUEBRADOS
Fabrcio Carpinejar*

Chega um momento em que a relao precisa quebrar os ovos. bom estar preparado.
Ser como o trabalho domstico: transparente. Lava-se loua, roupa, estende, retira os vincos com ferro, limpa casa, recolhe o lixo, arruma os brinquedos e os filhos nem reparam que tudo est novamente no lugar e no armrio, apesar da baguna feita recentemente. bvio que no vo agradecer. o que chamo de passado secreto. Aconteceu, mas no merece memria. Entretanto, a raiva fica: no fui valorizado e resta um desmemoriado mal-estar.
Minha namorada resolveu comer omelete. Ela j fez o prato outras vezes em seu apartamento.
Estava em casa e me antecipei na captura dos ingredientes, louco para agrad-la. Mas a minha meno de executar a tarefa a desagradou. Entenda, o passado secreto. O ardiloso passado secreto. Com minha efusiva disposio, ela desconfiou de que no gostava de suas omeletes e que somente agora, decorrido um ano, estava com coragem de falar.
Raciocinei que significava uma informao dispensvel, meu modo era dourar os dois lados e o dela era envelopar a massa ao final, mas ela tratava o assunto com tamanha energia que at me assustou.
- Quer que eu faa?
- No gosta do jeito que fao?
- Gosto, que eu mostraria minha predileo...
- Gosta nada, quem j fez omelete para voc? Quer do jeito de quem? Confessa?
- De ningum.
- Ora, vai nessa, qual a receita? Com queijo ralado, requeijo, fatias? Por que nunca me disse que no gostava da minha omelete? Eu me sinto uma idiota...
- Eu gosto, s busquei uma maneira diferente.
- Que maneira?
(Da eu me danei)
Levaremos mais tempo discutindo na tentativa de prevenir a discusso. A conversa durou duas horas. Duas horas sobre absolutamente nada, a no ser o medo do que no foi vivido junto. Se aliso seu umbigo, acreditar que repito um convite libidinoso com uma antiga namorada. Quanto mais a gente se entrega, maior o pnico de estar sozinho na doao, de ser uma miragem afetiva. Tanto que aps desfiar um eu te amo tanto, no ouse nunca mais declarar eu te amo - como se amasse menos.
O cime est dobrado em cada gesto, fazendo contas e pedindo estornos. No h sada; passe manteiga na conversa, aquea a frigideira e admire os ovos quebrados na pia.
Repare como o negcio tinhoso. Durante as compras, no caixa, costumava perguntar se ela estava naquele momento com troco. No falava dinheiro, mas troco. Uso troco para tudo. Para qu? Ela j formulou uma tese de que empregava o cdigo com a ex. Igual sina em nossas rotas romnticas. Relaxados, sozinhos e prontos para namorar, peo que ela me alcance o champanhe do balde: - Por favor, me passe a champs? Champs? Feito o entrevero. Usava tambm esse dialeto com a ex.
O grave que ela tem razo. S no desejava brigar, ainda mais quando no tenho defesa. Ela poderia ser mais justa e me dar tempo para preparar uma mentira.


*Escritor